terça-feira, 16 de agosto de 2011

Um cão que escolheu o nome - A história do Bobby






Os meus avós, emigrantes em França, tinham uma casa de férias em Portugal, à qual vinham todos os Verões passar uma quinzena em Agosto com a sua gata Bolinha. Mas não será ela a protagonista desta história.
Num desses períodos de férias, decorria o ano de 2000, um novo visitante apareceu à porta da casa dos meus avós. Um visitante com um aspecto triste, cansado, sujo e doente, muito doente. Do pêlo que lhe devia cobrir o corpo havia apenas sinais; toda a pele estava coberta de feridas ensanguentadas. Era um cão. Trazia sinais de fome e muita comichão. A minha avó e a minha mãe apressaram-se a deixar à porta um prato de comida, que depressa desapareceu, mostrando de novo o prato vazio. Não foi difícil perceber que o animal não devia ser alimentado convenientemente há muito tempo. Não ladrava, o que revelava sinais de algum trauma, ou talvez fosse mudo, e essa poderia ser a razão para o seu abandono, caso tivesse tido donos. Foi, durante muito tempo, esta a versão que nos convenceu. Precisava também de um banho, devia estar a ser comido por carraças e um banho aliviaria a comixão. Foi convidado a entrar para o pátio da casa. Olhou, desconfiou, entrou a medo. O banho soube-lhe bem e, ainda que as feridas se mantivessem, deu-lhe um aspecto renovado e um maior alento. A minha mãe achou que era necessário baptizar o cão: já existia uma relação de amizade, devia existir também um nome. E foi a pensar nas personagens da sua série preferida, Dallas, que olhou para ele e disse:
- Queres ser o JR ou o Bobby? JR? Ou Bobby?
Abanou o rabo com o som «i». Ficou Bobby.
Mas algo mais havia a fazer: o animal sofria, tinha a pele ensanguentada, era necessário perceber o que se passava para o fazer recuperar, se ainda fosse possível. A solução não tardou a surgir: a minha madrinha, que recolhe desde sempre animais abandonados em sua casa ( tem, actualmente, 4 cadelas, 20 gatos, e ainda coelhos, galinhas e um rato-chino ) saberia o que fazer. Pegamos no Bobby, colocamo-lo dentro de uma caixa grande de cartão na mala de um Renault Clio de 2 lugares, com esperança de que não tivesse pulgas ou carraças que infestassem o carro, o que seria um grande problema para resolver com o meu pai, que desde que viu o animal achou má ideia aproximarmo-nos dele. A minha madrinha aconselhou então a que pusessemos Betadine na pele do cão, uma vez que não arde e ajuda a sarar feridas. Tendo já aquela que esperávamos ser a solução do problema, faltava decidir onde colocaríamos o animal. As opções variavam entre mantê-lo na rua ou recolhê-lo. A minha avó insistia que não podia levá-lo doente numa viagem até França, e que a gata Bolinha não iria conviver amigavelmente com um cão, mas devolver o cão às ruas só agravaria os seus problemas de saúde e poderíamos perder o seu rasto facilmente. O mais conveniente seria, sem dúvida, ficamos nós com o Bobby: a casa tem espaço para ter um animal e dispomos de tempo para lhe dedicar atenção. A minha mãe acabou por se deixar convencer, e lá foi a caixa de cartão na mala do Renault Clio para nossa casa. O meu pai, não tendo reagido de modo particularmente afectuoso, não se pode dizer que tenha reagido muito mal. Soubemos que a vizinhança estranhou, gracejou, troçou, mas não fizémos caso. A pele do Bobby não melhorava com o Betadine e isso sim, era importante resolver. Já depois do regresso dos meus avós a França e desconfiada de que a situação era mais grave do pensaramos ao início, a minha mãe pediu a uma amiga que lhe indicasse um bom veterinário. Quando a amiga, que se tinha oferecido para acompanhar a minha mãe na primeira consulta, viu o estado do Bobby, aconselhou a minha mãe a deixá-lo ficar à porta da clínica, dizendo que as veterinárias certamente o iriam recolher. No entanto, a minha mãe preferiu ir à consulta e ficar a saber o que poderia fazer para salvar o animal. A resposta da veterinária foi esclarecedora:
- O que ele tem é sarna, por isso é que tem tanta comichão. É muito contagioso, tem cura e exige muitos cuidados e tratamentos diários. O que quer fazer?
Ficámos com ele. O tratamento exigia a colocação de um óleo diariamente, comprimidos ( que só com muita insistência e disfarçados no meio de fiambre o Bobby ingeria ) e uma dieta à base de frango e arroz, além de cuidado na aproximação ao animal, uma vez que corríamos risco de contágio. E de forma lenta as melhoras foram surgindo. O pêlo foi crescendo, as feridas sarando, o sangue desapareceu. E eis senão quando, um dia, ao ver-nos aproximar para o acariciar, o Bobby ladrou. E foi um ladrar de alegria, de quem já encontrou algo que lhe faltava! Passaram-se 11 anos e o Bobby agora tem 12. Continua connosco, a brincar, a ladrar e a trazer-nos bons momentos que serão, um dia, boas recordações. É um cão cheio de energia, de vitalidade, que não dispensa companhia e carinho. É um apreciador de queijo e de rituais e conhece os dias da semana: sabe que ao Domingo o pequeno-almoço é mais doce e não resulta tentar trocar-lhe as voltas! Não gosta de tomar banho nem de ver outros cães a passar na (sua) rua, invadindo-lhe a propriedade do seu horizonte. A sua personalidade é, assim, forte, determinada, convicta e cheia de doçura e esperamos que esteja presente na família por muitos e muitos anos, tantos que nos possam quase fazer esquecer as suas tristes origens.



Escrito por Luna Karenine